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Compra de Empresas

Como Financiar a Compra de uma Empresa em Portugal

Diogo Pinto
12 min de leitura

Capital próprio, crédito bancário com garantia mútua, Linha Impulsar Portugal, pagamento diferido ao vendedor, earn-out e investidores: como se paga a compra de uma PME.

Como Financiar a Compra de uma Empresa em Portugal

A compra de uma PME em Portugal raramente é paga só com dinheiro do comprador. Na prática combina-se capital próprio, dívida bancária com garantia mútua, pagamento diferido ao vendedor e, em alguns casos, investidores. O peso de cada parte depende do preço, dos resultados da empresa e de quem compra.

As peças habituais são seis: capital próprio, crédito bancário (muitas vezes com garantia mútua e linhas públicas como a Linha Impulsar Portugal), pagamento a prestações ao vendedor, earn-out indexado a resultados, dívida privada ou mezzanine e entrada de investidores no capital.

Este guia explica cada uma, o que costuma ser pedido e como se combinam. Não é aconselhamento financeiro e não substitui a análise de uma instituição de crédito.

Como é normalmente financiada a compra de uma empresa

Uma aquisição de PME junta quase sempre mais do que uma fonte. Um exemplo com números redondos, apenas para ilustrar a mecânica: numa compra de 800.000 €, o comprador pode entrar com 240.000 € de capital próprio, obter 400.000 € de dívida bancária a médio prazo e acordar com o vendedor o pagamento dos restantes 160.000 € ao longo de três anos.

Nada nisto é uma regra. As proporções mudam com o setor, com a qualidade dos resultados, com os ativos que servem de garantia e com a experiência de quem compra. O que se mantém é a lógica: a empresa comprada tem de conseguir pagar a dívida que a compra criou, e é isso que qualquer financiador vai verificar primeiro.

Quanto capital próprio pode ser necessário

Não existe uma percentagem universal. Há operações fechadas com pouco capital próprio quando existem ativos fortes a dar como garantia, e outras em que o financiador pede uma parte substancial mesmo com bons resultados.

O que costuma pesar na decisão:

  • Resultados demonstráveis: um EBITDA estável e documentado reduz a exigência de capital próprio.

  • Ativos dados em garantia: imóveis, equipamento ou frota mudam a conversa.

  • Experiência do comprador: quem já geriu no setor tem um argumento que quem entra de novo não tem.

  • Parte paga pelo vendedor a prazo: cada euro diferido é um euro que não precisa de ser financiado hoje.

Antes de falar com um banco, vale a pena saber quanto consegue aplicar sem financiamento. É o primeiro número que lhe vão pedir.

Crédito bancário para aquisição

O empréstimo a médio ou longo prazo é a base da maioria das operações. O banco analisa a empresa que está a ser comprada — não apenas quem compra — porque é dela que sairá o dinheiro para pagar.

Costuma ser pedido:

  • Contas dos últimos exercícios e situação fiscal e contributiva regularizada.

  • Um plano que mostre como a empresa continua a funcionar depois da mudança de dono.

  • Garantias — reais, pessoais ou de garantia mútua.

  • O contrato ou a minuta da operação de compra e venda.

A decisão, as condições e a taxa são da instituição de crédito. Ninguém consegue prometer aprovação antes dessa análise.

Garantia mútua e programas públicos

A garantia mútua é um mecanismo em que uma Sociedade de Garantia Mútua (SGM) garante parte do financiamento junto do banco. Para a empresa, serve para desbloquear operações que de outra forma não teriam garantias suficientes; tem uma comissão de garantia associada, paga por quem beneficia dela.

Não elimina a análise de risco nem garante a aprovação: acrescenta uma garantia à operação, não substitui a decisão do banco.

Linha Impulsar Portugal

A Linha Impulsar Portugal é uma linha de financiamento com garantia mútua do Banco Português de Fomento, com uma dotação global até 1.500 milhões de euros, organizada em quatro eixos. O que interessa a quem compra uma empresa é o eixo Investimento Estratégico.

Segundo as condições publicadas pelo Banco Português de Fomento, esse eixo destina-se a financiamento de médio e longo prazo para:

  • Aquisição de participações sociais no âmbito de processos de sucessão empresarial, aumento de escala, ou operações de Management Buyout (MBO) e Management Buyin (MBI) que visem a continuidade ou o desenvolvimento da empresa alvo;

  • Leasings mobiliários e imobiliários, incluindo a partilha do bem locado;

  • Financiamento a empresas viáveis que se proponham adquirir empresas em dificuldade financeira ou em processo de insolvência.

Condições publicadas para este eixo:

  • Montante máximo por empresa: até 25.000.000 €.

  • Garantia mútua: 70%.

  • Maturidade: até 144 meses.

  • Período de carência: até 36 meses.

  • Prazo de vigência da linha: até 31 de dezembro de 2028, prorrogável por anúncio do Banco Português de Fomento se a dotação não se esgotar.

  • Como candidatar-se: junto de uma Instituição de Crédito aderente ou na Sociedade de Garantia Mútua.

O spread é determinado pela notação de risco de cada instituição de crédito e pela maturidade da operação, e os juros são suportados pelo beneficiário. Estas condições são as divulgadas à data desta atualização e podem mudar: confirme sempre o Documento de Divulgação no catálogo do Banco Português de Fomento antes de contar com elas.

Aquisição de participações

Comprar participações sociais é comprar a sociedade com o que ela tem dentro — contratos, licenças, trabalhadores, mas também o passivo e o histórico fiscal. É a via habitual quando se quer continuidade jurídica: os contratos com clientes e fornecedores não têm de ser renegociados.

A alternativa é comprar apenas ativos ou o estabelecimento (trespasse), deixando a sociedade de fora. Simplifica o risco herdado, mas obriga a refazer licenças e contratos. A escolha muda o que se financia e que garantias existem.

Sucessão empresarial

Muitas PME portuguesas chegam ao mercado por falta de sucessão: o dono quer reformar-se e não há quem continue dentro da família. São operações que interessam a quem financia, porque a empresa costuma ter história, resultados e clientes estáveis.

É um dos casos expressamente cobertos pelo eixo de Investimento Estratégico da Linha Impulsar Portugal.

MBO e MBI

Num MBO (Management Buyout), é a equipa de gestão atual que compra a empresa onde já trabalha. Num MBI (Management Buyin), é um gestor de fora que entra comprando.

O MBO parte com uma vantagem óbvia: quem compra já conhece as contas, os clientes e os problemas. Isso costuma reduzir a incerteza para o financiador. Em qualquer dos casos, o capital próprio da equipa de gestão é normalmente inferior ao preço, e a estrutura combina dívida bancária com pagamento diferido ao vendedor.

São operações expressamente previstas no eixo de Investimento Estratégico da Linha Impulsar Portugal.

Pagamento diferido ao vendedor (seller financing)

O vendedor aceita receber parte do preço ao longo do tempo, em vez de tudo no fecho. Reduz a necessidade de financiamento externo e, no plano prático, mantém o vendedor interessado em que a empresa corra bem depois de sair.

Por definir ficam o prazo, os juros, as garantias e o que acontece em caso de incumprimento. É uma peça de negociação, não um produto financeiro: depende inteiramente do acordo entre as partes.

Earn-out

Parte do preço fica dependente de resultados futuros — faturação, EBITDA ou outro indicador acordado, medido num período definido.

Serve quando comprador e vendedor não chegam a acordo sobre o valor porque discordam do futuro do negócio. O comprador não paga hoje por um desempenho que ainda não viu; o vendedor recebe mais se o negócio confirmar o que prometia.

Exige clareza absoluta na definição do indicador, na forma de o calcular e em quem controla a gestão durante o período — é aí que os earn-outs correm mal.

Dívida privada e mezzanine

Fora da banca tradicional existem fundos e entidades que emprestam a empresas, muitas vezes com prazos mais longos, exigências de garantias diferentes e custo superior. O mezzanine fica entre a dívida e o capital: remunera-se mais que um empréstimo e pode converter-se em participação.

Faz sentido sobretudo quando a operação não encaixa nos critérios da banca ou quando falta uma camada entre o capital próprio disponível e o que o banco aceita financiar.

Investidores e entrada no capital

Em vez de dívida, pode entrar um sócio com capital. Não há prestação a pagar, mas há diluição: passa a partilhar decisões e resultados.

É uma via mais comum em operações maiores ou com forte perfil de crescimento. Em PME de sucessão, é menos frequente do que a combinação de dívida com pagamento diferido.

EBITDA e capacidade para pagar a dívida

É aqui que a maioria das operações se decide. O financiador quer saber se o dinheiro que a empresa gera chega para pagar a prestação, depois de pagar tudo o resto.

O EBITDA usado não é o das contas tal como estão: normaliza-se. Retiram-se despesas pessoais do proprietário que não vão continuar, resultados extraordinários que não se repetem e custos que desaparecem com a mudança. O que fica é uma estimativa do que a empresa gera em condições normais.

A partir daí compara-se com o serviço da dívida — capital mais juros por ano. Uma folga confortável entre os dois é o que dá conforto a quem financia; uma folga apertada tende a exigir mais capital próprio, mais prazo ou mais garantias.

Que informação é normalmente pedida

  • Contas dos últimos três exercícios e balancetes recentes.

  • Situação fiscal e contributiva regularizada, da empresa e do comprador.

  • Estrutura da operação: o que se compra, por quanto e com que capital próprio.

  • Plano para o negócio depois da compra, incluindo quem fica a gerir.

  • Garantias disponíveis.

  • Contrato promessa ou minuta da compra e venda.

Estruturas híbridas: exemplos simples

Os números abaixo são exemplos de estrutura, não condições de mercado nem propostas.

  • Sucessão numa empresa com imóvel: 30% capital próprio, 50% dívida bancária com garantia mútua e o imóvel em garantia, 20% pago ao vendedor em três anos.

  • MBO sem ativos relevantes: 20% capital próprio da equipa, 50% dívida a médio prazo assente nos resultados, 30% entre pagamento diferido e earn-out ligado à manutenção dos clientes.

  • Aquisição por empresa já existente: a compradora usa a sua própria capacidade de endividamento, com capital próprio menor e prazo mais longo.

Como corre o processo

  1. Definir a operação: preço, o que se compra e quanto entra de capital próprio.

  2. Reunir informação: contas, situação fiscal, contratos, garantias.

  3. Falar com quem financia: banco, sociedade de garantia mútua ou assessor especializado.

  4. Análise de risco: a instituição avalia a empresa, a operação e o comprador.

  5. Proposta e condições: montante, prazo, taxa, carência e garantias.

  6. Contratação e fecho: o financiamento acompanha a escritura ou o contrato de compra e venda.

Entre o primeiro contacto e o desembolso costumam passar semanas, não dias. Contar com prazos curtos é a causa mais frequente de negócios que se perdem por razões que nada têm a ver com o preço.

Perguntas frequentes

É possível comprar uma empresa sem capital próprio?

É raro e difícil. Sem capital próprio nenhum, a operação fica dependente de garantias externas fortes ou de o vendedor aceitar diferir quase todo o preço. A maioria dos financiadores quer ver o comprador exposto ao risco.

O banco financia a compra de participações sociais?

Sim, é um caso previsto — designadamente no eixo de Investimento Estratégico da Linha Impulsar Portugal, para sucessão, aumento de escala, MBO e MBI. A aprovação depende sempre da análise de risco da instituição.

Quanto tempo demora a obter financiamento?

Varia com a instituição e com a qualidade da informação apresentada. Contas organizadas e uma estrutura de operação clara encurtam o processo; falta de documentação é o que mais o atrasa.

Pode financiar-se a compra de uma empresa em dificuldades?

O eixo de Investimento Estratégico da Linha Impulsar Portugal prevê expressamente o financiamento de empresas viáveis que adquiram empresas em dificuldade financeira ou em processo de insolvência. É uma operação mais exigente de estruturar.

O Comprar Empresa concede financiamento?

Não. O Comprar Empresa não concede crédito, não aprova financiamento e não recomenda produtos financeiros. Podemos encaminhar o seu pedido para um parceiro independente especializado em financiamento de aquisições; a análise, a proposta e a contratação são feitas diretamente com esse parceiro.

Próximo passo

Se já sabe que empresa quer comprar, o mais prático é partir do anúncio: veja as empresas à venda e peça a análise de financiamento a partir da ficha do negócio, onde o preço e os dados financeiros publicados já acompanham o pedido.

Se ainda está a decidir o que procurar, comece pelo guia para comprar uma empresa em Portugal.

Fontes e recursos oficiais

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